26.6.07

Mudando de assunto

Amigos, cobram-me linhas sobre o amor. Sempre. Respondo toda vez da mesma forma: nas coisas do amor, sou um neófito, portanto, prefiro calar. E creio que, neste tema, meus cabelos nunca hão de se tornar brancos. Pois há assuntos em que, a despeito do esforço, amigos, o homem nasce fraco, vive pouco e morre jovem. Não se trata de covardia, mas, sim, de resignação.

Era o que eu tentava, de forma paciente, explicar para o Aldo, dias atrás, no telefone: “Calma, amigo. Não se culpe, por Deus, não se culpe”. Chorava um choro triste, o Aldo, e, desolado, praguejava: “Não, Gaudério, eu errei, eu errei!”.

Há qualquer coisa de heróico nas lágrimas de amor. Ainda mais quando partem de um homem. Passaram-se os anos, vieram as revoluções comportamentais e, fora o discurso, pouco se alterou. O choro continua escondendo-se nos continentes mais longínquos da alma masculina.

Falei do Aldo e tenho de explicar. Meu amigo foi, durante anos, o grande conquistador. Para ele, não havia percalços, havia, tão- somente, a conquista, a esperá-lo, de braços abertos e olhar acolhedor. Por isso é que nunca compreendeu as recorrentes queixas dos homens acerca do caráter enigmático da mulher.

Afeito a desnudar a alma feminina com a mesma facilidade com que uma criança desarma, sorrindo, a feição exasperada de um adulto, o Aldo via na falta de perspicácia a razão para o que considerava como sendo “uma leviandade”. “Gaudério, para esses aí, cachorro e lingüiça são a mesma coisa”, chalaceava com a testa enrugada, contendo o sorriso. O Aldo é, na verdade, o único alquimista que conheço. Capaz de façanhas.

Certa vez, conquistou a mais ferrenha ativista de uma ONG cuja razão de ser era a luta contra o tabagismo. O Aldo fuma, amigos. Doutra feita, arrebatou o coração de uma cocota cujo carro custa mais que cinco transatlânticos bolivianos, se é que lá os há. Amigos, o Aldo é pobre. O sujeito transformava qualquer objeto de repulsa em atributo. Repito: um alquimista.

Bastou um revés, apenas um, no entanto, para que a realidade se lhe descortinasse: para nós, o amor é o outro. É, amigos, é o outro. Inatingível, incerto e distante como o outro.

Até um alquimista cai de joelhos diante da realidade do amor. Foi o que aconteceu com o Aldo. Por isso é que me recuso a falar do assunto. Quando muito, roço no tema, com pudor de virgem vestal e olhos de Madre Tereza.

Outro dia, a caminho da padaria, vi um casal de mãos dadas. Seguiam pouco a minha frente, em passos médios, como eu. Dizia ela, em tom suave: “Se me deixar, morro...”. Ele, com a postura mais ereta que solteironas quando se põem a falar sobre equilíbrio emocional, responde, seco: “Não deixarei”. Reduzindo os passos, ela suspira e retruca: “Meu amor...”.

Era a certeza do outro, que, no fim das contas, é a única que procuramos.

8.6.07

Negras e Vermelhas

Com cara de gladiador romano de última hora, frente aos leões do imperador – notem, amigos, que nem todos os gladiadores eram Spartacus –, protestava o Ferreira, há alguns anos, num café da avenida Paulista: “Gaudério, a ditadura brasileira torturou demais, torturou demais!”, e meneava a cabeça, segurando o queixo e contraindo o rosto, “meu deus, meu deus”. Aquela cena marcou-me de tal modo que, toda vez que passo por aquele café, atravesso a rua: tem cheiro de tortura.

Com o passar do tempo, notei, vejam vocês, que a expressividade do cinema neo-realista italiano não era privilégio do rosto do Ferreira. Era, pois, de toda uma turma. Por onde eu passava, havia sempre um Ricci (protagonista do filme Ladrões de Bicicleta, de Vittorio De Sica), a lamentar, com a feição contraída, o roubo, não de sua bicicleta, como no filme, mas de seu passado ou dos seus, de sua identidade e quantos roubos mais se “pode” atribuir àqueles mandatários, como se costuma fazer.

Com efeito, o que quero dizer é que a tortura sofrida por políticos, estudantes, artistas, professores etc., durante o período autoritário no Brasil, é pauta diária. Não importa por onde se inicie uma conversa, o papo converge, sempre, para o mesmo centro.

Amigos, no Brasil dos instruídos, é fato, só se fala em tortura. Não há mais assunto. Vou além: só se fala, só se escreve, só se filma, só se estuda esse tema. De cada dez entrevistados em programas televisivos, revistas semanais, documentários de cinema e coisa que o valha, nove foram torturados - o que sobra também foi, mas desconversa: é, geralmente, o mineiro de Fernando Sabino, que prefere não falar nisso. Sem mencionar as teses de mestrado e doutorado que proliferam nas universidades afora.

Inevitável, portanto, chegar à terrível conclusão de que este país é a própria tortura. Um povo sofrido, cujo dorso suporta infinitas e gravíssimas conseqüências de um tempo não tão longínquo, responsáveis, inclusive, por nossa eterna condição de subdesenvolvimento.

Citei, lá em cima, a figura do imperador romano, que me leva agora a pensar, obviamente, em Nero.

Registram os anais, poucos, é verdade, que, em certa ocasião, talvez levado por certo marasmo, aquele imperador, depois de mandar recolher na arena alguns corpos de cristãos mortos por leões, prendeu-os a grossos pilares de madeira, ateando-lhes fogo. Para o romano, isso era pouco, concordo. Pouco não foi, no entanto, ter disposto os pilares ao redor de um espaço em que ele, Nero, receberia convivas para uma festividade. Amigos, entendam: os cristãos serviram de iluminação para a festança do imperador.

Fosse o ato considerado como se deveria, lembrado ao esgotamento, com lágrimas nos olhos e o rosto horrorizado, talvez os críticos de plantão da ditadura sentissem um pouco de vergonha em pronunciar, mais de uma vez, termos como “pau-de-arara”. E a maldita mania de pensarem o período “ditatorial” brasileiro como uma das páginas mais negras da história mundial talvez os abandonasse, para todo o sempre.

Porque, História afora, amigos, encontram-se muitas páginas negras. Poucas são, contudo, as que vertem sangue. De espessura grossa. De ar pestilento. E esse, devo crer, não chega a ser o nosso caso.

14.5.07

Redenção

Amigos, já estive na Suécia, ou por outra: já estive no que creio ser um dos melhores lugares do mundo. Sim, dos melhores. É certo que não visitei mais que um punhado de países - e todos no continente europeu, por sinal -, o que não me torna a pessoa mais indicada para falar a respeito. Mas aquela terra causou-me uma impressão tão pura, que não concebo lugar melhor.

Ali, tudo funciona, tudo dá certo, tudo caminha. Aquele mundo é a resultante que mais se aproxima da perfeita equação metafísica jacintiana da felicidade, trazida à luz pelo Eça, em A Cidade e as Serras. Mesmo o alarde que se faz em torno do alto número de suicídios não retira da Suécia a alta expectativa de vida dos seus cidadãos.

Quando por lá passei, bastante tempo atrás, não era mais que um rapazote imberbe. Considerei, por anos, ser este o motivo pelo qual eu não conseguia lembrar-me da já referida frieza do povo sueco. À parte o clima, nada existe naquele país, naquele povo, que justifique a afirmação.

Não foram poucas as vezes em que, esperando no meio fio, fui contemplado com largos sorrisos por parte dos motoristas, homens e mulheres, que, ao menor gesto de eu atravessar a rua, independentemente de haver ou não semáforos, freiavam seus carros com a mesma cortesia com que um cavalheiro, dois séculos atrás, retirava o chapéu diante de uma bela senhorita.

Aliás, ali, não é preciso solicitar nada. Parece que o sueco nasceu sabendo sobre as necessidades dos seus, que não se resumem à própria parentela. Precisar dos outros na Suécia nunca é um inferno, os outros estão, definitivamente, a léguas de serem um inferno.

Visitando alguns blogs é que deparei, novamente, com a tal frieza sueca, o mesmo que dizem dos alemães e de tantos povos. Em uma das páginas pelas quais passei, uma garota discorria sobre a dificuldade de se estabelecer vínculos mais profundos com jovens suecos. Até aí tudo bem, creio que seja mesmo essa a característica daquele povo.

O mal eterno está em tomar esse comportamento como sendo de natureza opaca, fraca de emoções. Amigos, percebam: uma afirmação desse gênero saindo da boca de um brasileiro é uma das maiores inversões de que já se teve registro. Lúcifer, amigos, não chegaria a tanto.

Não consigo ver, nem de lupa em punho, o menor traço de calor humano num povo que tem por princípio considerar o outro como simples ocasião de vantagem; que vê seu semelhante como concorrente, sempre, mesmo nas coisas mínimas; que julga quando deveria amparar, que cala quando deveria reprimir; que se irrita com facilidade; que, em suma, age apenas em benefício próprio.

Não, amigos, não pode ser o carnaval nem o esporte critérios de avaliação da humanidade, do calor de um povo. De um abraço carnavalesco animado a um olhar fraternal numa fria manhã chuvosa e de comemorações efusivas em grupo a um aperto de mão sincero, há um abismo.

O brasileiro deveria, todos os dias, sair às ruas e, ao encontro do primeiro compatriota, encará-lo com ternura, beijá-lo na face e pedir-lhe perdão. Assim, talvez, conseguisse salvar a própria alma da pior das danações, que é a do desdém pelo próximo. E estaria, quem sabe, apto a dizer, com cautela, alguma coisa sobre outras gentes.

8.5.07

Letrados


Vez ou outra, vagando pelos caminhos sinuosos do acaso, descubro verdades rodrigueanas, eternas. Que se impõem de maneira tão vigorosa que as ignorar é ignorar a realidade das coisas, o mesmo que ignorar a si próprio. Foi uma dessas verdades que se me impôs sábado passado: há, no Brasil, mais de cento e oitenta milhões de entendidos em Os Lusíadas, a maior obra do poeta português Luís Vaz de Camões.

Não há alma neste país que, diante do poema épico, mantenha-se calada. Pelo contrário. Já tive de apartar briga, briga feia, porque todos, ao ser suscitado o assunto, queriam tomar a palavra em primeiro. Mas se vocês pensam, prezados amigos, que a natureza dos comentários se resume à simples descrição da obra, a uma inocente troca de figurinhas, enganam-se. Não. As gentes decretam, em tom seguro e de cima do altar da intelectualidade, os seus julgamentos, que não são poucos, nem suaves. Milhões de juízes, carentes de toga, todos, de dedo em riste, apontando para o épico. Ou por outra: condenando-o.

Já ouvi sentenças de todo tipo acerca da obra que precisou tirar a vida de uma garota para poder continuar existindo, segundo conta a lenda. Extensa, pretensiosa, anacrônica, desgastada, e daí pra diante. Quando se trata de Os Lusíadas, língua nenhuma pensa em conter-se. Outro dia, tive de ameaçar de tiro o Freitas, que não calava. No auge de seu discurso, chegou mesmo a perder o fôlego. Com os olhos esbugalhados, a tez vermelha e as sobrancelhas arqueadas, o sujeito cuspia críticas. O pior é que a fala inflamou as pessoas sentadas ao lado, que logo passaram, também, a falar de Camões, de Os Lusíadas. A Balbúrdia estava criada. Nem Deus desfazia aquilo.

Apesar da diversidade das críticas e certa discordância, descobri um consenso, o de que Camões é chato. Sim. Chato. Chega sempre o momento em que alguém decreta a condenação, para gozo da platéia, que aplaude, em pé, o brilhantismo do sujeito, cujas ovações que recebe o faz com lágrimas nos olhos.

Quando, no sábado, em meio a uma conversa artificial e informal entre mim, um amigo e duas garotas, surgiu o nome de Camões, preparei o ouvido: chato. Não deu outra. A sentença veio de uma garota magrinha, baixinha e bonitinha - daquelas cocotas que se esforçam, herculeamente, para mostrar uma rebeldia que sua alma não possui. Chato. Eu e meu amigo, o Abranches, ainda tentamos resistir, debalde. O eco da palavra já se propagava, às tontas, pelos quatro cantos do aposento, e martelava, sutilmente, em nossos ouvidos, a cantiga da perplexidade: chato, chato, chato...

Saí de lá com a constatação de que apenas eu e mais um punhado de pessoas somos os únicos rasos o bastante para não alcançar o que pretendeu Camões com tudo aquilo. Eu, talvez, o mais raso de todos. Porque sua obra é, para mim, o que é a cor para os cachorros: preto e branco. No épico do poeta português, não vejo, por incapacidade minha, quase nada do que deveria ver. Nem que quisesse, portanto, não poderia chatear-me com Os Lusíadas.

Não vejo, é verdade, mas desconfio.

Rezo, com ardor, para que Deus, em determinado momento da minha vida, permita livrar-me desta desconfiança: a de que onde vêem extensão desmedida, haja exatidão de forma; no lugar de pretensão pedante, consciência e honestidade artística; anacronismo, onde permanece a atualidade; e em vez de desgaste, um vigor que não se cansa, nunca, de cantar a essência humana.

Até lá, enquanto não puder mais do que simplesmente desconfiar, nada há que fazer. E mesmo estando eu correto, ainda assim haverá pouco, muito pouco a ser feito contra essa verdade, que se mostra eterna.

Agora, pior que a chatice camoniana, foi eu nunca ter me dado conta de outra verdade: os brasileiros são assíduos leitores do gênero poético.

23.1.06

Conversa entre amigos

Pouca coisa me agrada mais do que uma longa conversa com um amigo. Regada a café. Muito café. E tem de haver os desvios também. Dos que põem a conversa num rumo completamente diferente daquele do início. Política, futebol, arte, filosofia, amenidades, enfim, a pauta é de menos, vale mais o que se pode tirar dela.

Tenho quatro bons amigos. Que se importam menos com o conteúdo do que falo do que com a forma como falo. Querem, de mim, a pegada pessoal, e eu, a deles. Porque todo mundo lhe dá ouvidos caso você tenha uma notícia bombástica para relatar. Mas os amigos, não. Ah, os amigos contentam-se com pouco, desde que dito por você.

Na minha infância, tive lá os meus entusiasmos de garoto, é claro. Adorava, por exemplo, jogar futebol. Disputava, no pátio do prédio onde morava, longas partidas. Eu era insaciável. Queria não dois, mas três, quatro, cinco jogos. Até ficar extasiado, sentado, observando na paisagem a morte temporária da minha hiperatividade. Era bom. Mas nada comparado às conversas que tinha com meus amigos e colegas. Reuníamo-nos, também no pátio e em grande número, e ficávamos horas a tagarelar. Eu costumava falar demais. Também gostava de ouvir. Quanto mais dizia mais tinha a dizer; quanto mais ouvia mais tinha a ouvir. Foi quando percebi que emudecer perante o outro é privar-se de si próprio.

Mas, vejam vocês, ao entrar na adolescência, comecei, quando o assunto era conversa, a odiar os grandes números. Passei a ter verdadeira ojeriza de reunir-me com muitas pessoas. Dizendo muitas quero dizer mais que quatro. Era o limite. Cinco já extrapolava. Seis nem pensar. E sete, bem, sete era o número da Besta. O que dizer de oito, nove, dez? Há, pois, uma explicação. Notei consideráveis diferenças entre o garoto e o adulto. O garoto fantasia, o adulto mente; o garoto se enerva; o adulto espuma; o garoto afirma, o adulto decreta. Logo, cinco adultos juntos, conversando, é briga. Dificilmente consegue-se falar e, quando se consegue, não há meios de se concluir. Ou então se fala, mas não se é ouvido. Sem falar da pedantaria. Nos dias de hoje, todos têm muito para dizer. Bem, ao menos é o que acreditam. A verborragia é a marca do nosso tempo. Por essas e por outras, tantas outras, é que passei a evitar as multidões. Prefiro, mesmo, a solidão de dois discursos, esquecidos em algum canto.

Trago já de família o costume da conversa. Minha mãe, meu pai e minha irmã sempre foram os meus maiores interlocutores. Falava-se muito em casa, e continua-se falando. Até meu pai, que não admitia que suas decisões fossem contestadas, acabou por render-se. Dessa feita é que, como nos plenários, passou-se a estipular as pautas semanais. Era engraçado. Eu chegava em casa e ouvia alguma conversa. Já ia me intrometendo. Logo me davam a palavra. Em pouco tempo, estava instaurado o falatório, ora superficial, ora nem tanto. Mesmo a ausência de meu pai não bastou para abalar essa cultura. Que bom.

Acostumei-me assim. Por isso é que o gênero das pessoas lacônicas dá-me arrepios. Gêneros, pois há espécies diferentes. Existe o ouvinte profissional. Age, na maioria das vezes, como um terapeuta. Ouve, ouve e ouve. Só faz ouvir. E meneia a cabeça positivamente. Ah, e como o faz. Desses, eu me escondo. Há também os monossilábicos. O mundo, para eles, é um grande monossílabo. A tudo respondem com uma sílaba apenas. É ‘sim’ pra cá, ‘não’ pra lá. Quando muito, num ato que significa a própria ousadia, excedem-se respondendo com um ‘pois é’, ou ‘tem razão’, ou ainda ‘pode ser’. Cruzes! Procuro o verbo, sempre. A falta dele causa-me, por assim dizer, profunda tristeza.

Outro dia, telefona-me o Pedro. Dispara, curioso, a pergunta: “E aí, amigo, como foi a viagem com a garota?”. Ao que suspiro, e respondo: “Mais ou menos”. Quis saber o motivo. Expliquei: “Faltou o amigo, o amigo”. Sabia do que eu falava. Como eu, o Pedro sabe que vivemos buscando a redenção e que, se há uma forma de o homem redimir-se de toda a sua hediondez, é por meio da palavra, saída, talvez, da boca de um amigo, na solidão dos discursos, numa mesa qualquer.

6.1.06

Amor de pai


A primeira lembrança que tenho de meu pai já completou 25 anos. Os dois, em pé, num bar de uma pequena cidade do interior de São Paulo. Ele com trinta e nove anos, eu com três. Ele tomava uma meia cerveja, e eu, um Yakult. Ele trajando calça jeans, e eu, um macacãozinho. Ignoro muitas informações daquele dia. Não ignoro, porém, o trabalho que tive para abrir o pequeno potinho. Nem tenho dificuldades para lembrar que ele me oferecia ajuda. Mas eu não aceitava e ficava bravo, muito bravo. Depois ria. Ele ria também. Hoje, ao lembrar desse que foi o primeiro momento em que percebi alguma coisa do mundo, choro. Não por nada. É que sinto um impulso de correr até a sala para comentar com ele a mais tenra das minhas lembranças. Mas lembro que ele já não está mais aqui. Partiu.

Foi preciso que ele partisse para sempre para eu entender um pouco do que é ser pai. A idéia que tinha, na verdade um esboço, era distante. Continuará sendo esboço até que eu seja pai, caso for. É esse entendimento inicial, todavia, que funda o pai no garoto. Porque se trata de um processo. Torna-se pai da noite para o dia, é verdade. Mas apenas no nome. Já na alma... Há quem leve a vida toda. Mas por que tudo isso? Ah, sim, lembrei. Ao contrário de ser mãe, ser pai é doloroso. Dói porque falta ao homem aquilo que sobra à mulher: o amor sem limites. A ligação física da mãe com o filho, creio eu, é que gera esse amor. A natureza própria da mulher, de proteger a prole, também contribui para a solidez do sentimento. Tem-se, assim, a mãe que ama. Nunca a que aprende a amar, a ser mãe. Apenas ama, apenas é mãe. Já o pai, que possui a natureza da procriação, não conhece esse amor. Nunca. A ligação física também não existe. Resta ao pai, portanto, o duro, longo e, em muitas das vezes, eterno aprendizado. E por mais que aprenda, não alcançará, jamais, o amor materno. A utopia do pai é ser mãe. Eis o que eu realmente queria dizer: ser pai é padecer no purgatório.

Percebi isso dias atrás, quando lembrei, com lágrimas nos olhos, da figura do meu pai parado de pé à beira de um dos campos de futebol aqui do bairro. Eu tinha lá os meus onze, doze anos. O frio fazia vítimas. Éramos vinte e dois correndo para lá e para cá dentro das quatro linhas. Estávamos, ali, pela paixão do esporte. Além de que tínhamos, ainda, a companhia de mais vinte e um, fora o treinador. Meu pai, não. Estava só, vendo botinadas de ambos os lados. E olhava com olhos de um ex-jogador profissional que teve lá seus dias de fama no Noroeste de Bauru. Aprendia, solitário, a ser pai.

Era no estádio de futebol, precisamente o Morumbi, em que mais trocávamos impressões sobre a vida. Os intervalos dos jogos tinham a duração de duas horas para a maioria dos torcedores, a julgar pelos rostos enfadonhos. Para nós também. Mas não era, definitivamente, um fardo. Ali, eu via meu pai expandir-se, apenas ali. No mais, ele preferia a polidez. Certa vez, em uma das primeiras partidas em que fomos, no final da década de 1980, um atacante do São Paulo perde um gol embaixo das traves, sem goleiro. À época eu disputava o campeonato estadual por um time inexpressivo da várzea. Ele olha para mim espumando de raiva e diz: “Você viu, doutor?”. “Infelizmente, pai”, respondi intrigado. Ele dispara: “Filho da puta”. O palavrão saiu como que a fórceps. “Não conte para a sua mãe”. “Conto nada, pai”, acalmei-o, emendando: “Mas posso dizer também?”. “Só aqui”, ressalvou ele. “Filho da puta”. Era a cumplicidade. Tínhamos lá nossas desavenças também. O Corinthians era responsável por uma delas. Foi hercúleo o esforço para adquirirmos o ingresso daquele jogo que ocorreu em 1993. Ou melhor, para meu pai conseguir. “Espere aqui, e não ali, nem lá, aqui...”, falou-me peremptoriamente, “...já volto”. Estava no local até o ônibus do São Paulo chegar. Não me contive e fui até o tumulto tricolor que se formou em volta do da chegada do ônibus. Extasiado que fiquei, esqueci-me de voltar ao ponto de encontro combinado. Passadas duas, duas horas, ou seja, quase no começo da partida, meu pai encontra-me. Olha-me como se eu fosse um corinthiano que havia acabado de marcar um gol no nosso São Paulo e solta: “Você é retardado?”. Pararia por aí, não fosse um corinthiano ter passado e arrancado dele os tão sofridos ingressos. De tão nervoso, calou, e foi comprar outros ingressos, desta vez exigindo que eu o seguisse. Por misericórdia divina, o juiz anulou aquele que seria o gol de empate do Corinthians, no fim do segundo tempo. Ganhamos. No carro, meu pai olhava-me como quem diz: “Ah, se não tivesse ganho”.

Eu não quis ir ao velório do meu pai. Nem ao enterro. Ai de mim, ai de mim. Até de ter renegado o meu genitor fui acusado. Disseram, ainda, que não fui por preguiça. Não fui e não me arrependo. Fico, tranqüilo e feliz, com a imagem daquele homem parado à beira do campo, em plena quarta-feira, por volta das 17h30 da tarde, enquanto os outros pais corriam, arquejantes, para as suas casas. Dois meses antes de falecer, quando já tinha perdido parte da lucidez, na nossa última conversa, ele disse: “Talvez eu parta, aí é contigo”. “Não sei se consigo”, sussurrei com a boca trêmula. “Escuta...”, disse ele, “...acha que errei muito?" Meu pai foi um aluno dedicado. Até na morte.