23.1.06

Conversa entre amigos

Pouca coisa me agrada mais do que uma longa conversa com um amigo. Regada a café. Muito café. E tem de haver os desvios também. Dos que põem a conversa num rumo completamente diferente daquele do início. Política, futebol, arte, filosofia, amenidades, enfim, a pauta é de menos, vale mais o que se pode tirar dela.

Tenho quatro bons amigos. Que se importam menos com o conteúdo do que falo do que com a forma como falo. Querem, de mim, a pegada pessoal, e eu, a deles. Porque todo mundo lhe dá ouvidos caso você tenha uma notícia bombástica para relatar. Mas os amigos, não. Ah, os amigos contentam-se com pouco, desde que dito por você.

Na minha infância, tive lá os meus entusiasmos de garoto, é claro. Adorava, por exemplo, jogar futebol. Disputava, no pátio do prédio onde morava, longas partidas. Eu era insaciável. Queria não dois, mas três, quatro, cinco jogos. Até ficar extasiado, sentado, observando na paisagem a morte temporária da minha hiperatividade. Era bom. Mas nada comparado às conversas que tinha com meus amigos e colegas. Reuníamo-nos, também no pátio e em grande número, e ficávamos horas a tagarelar. Eu costumava falar demais. Também gostava de ouvir. Quanto mais dizia mais tinha a dizer; quanto mais ouvia mais tinha a ouvir. Foi quando percebi que emudecer perante o outro é privar-se de si próprio.

Mas, vejam vocês, ao entrar na adolescência, comecei, quando o assunto era conversa, a odiar os grandes números. Passei a ter verdadeira ojeriza de reunir-me com muitas pessoas. Dizendo muitas quero dizer mais que quatro. Era o limite. Cinco já extrapolava. Seis nem pensar. E sete, bem, sete era o número da Besta. O que dizer de oito, nove, dez? Há, pois, uma explicação. Notei consideráveis diferenças entre o garoto e o adulto. O garoto fantasia, o adulto mente; o garoto se enerva; o adulto espuma; o garoto afirma, o adulto decreta. Logo, cinco adultos juntos, conversando, é briga. Dificilmente consegue-se falar e, quando se consegue, não há meios de se concluir. Ou então se fala, mas não se é ouvido. Sem falar da pedantaria. Nos dias de hoje, todos têm muito para dizer. Bem, ao menos é o que acreditam. A verborragia é a marca do nosso tempo. Por essas e por outras, tantas outras, é que passei a evitar as multidões. Prefiro, mesmo, a solidão de dois discursos, esquecidos em algum canto.

Trago já de família o costume da conversa. Minha mãe, meu pai e minha irmã sempre foram os meus maiores interlocutores. Falava-se muito em casa, e continua-se falando. Até meu pai, que não admitia que suas decisões fossem contestadas, acabou por render-se. Dessa feita é que, como nos plenários, passou-se a estipular as pautas semanais. Era engraçado. Eu chegava em casa e ouvia alguma conversa. Já ia me intrometendo. Logo me davam a palavra. Em pouco tempo, estava instaurado o falatório, ora superficial, ora nem tanto. Mesmo a ausência de meu pai não bastou para abalar essa cultura. Que bom.

Acostumei-me assim. Por isso é que o gênero das pessoas lacônicas dá-me arrepios. Gêneros, pois há espécies diferentes. Existe o ouvinte profissional. Age, na maioria das vezes, como um terapeuta. Ouve, ouve e ouve. Só faz ouvir. E meneia a cabeça positivamente. Ah, e como o faz. Desses, eu me escondo. Há também os monossilábicos. O mundo, para eles, é um grande monossílabo. A tudo respondem com uma sílaba apenas. É ‘sim’ pra cá, ‘não’ pra lá. Quando muito, num ato que significa a própria ousadia, excedem-se respondendo com um ‘pois é’, ou ‘tem razão’, ou ainda ‘pode ser’. Cruzes! Procuro o verbo, sempre. A falta dele causa-me, por assim dizer, profunda tristeza.

Outro dia, telefona-me o Pedro. Dispara, curioso, a pergunta: “E aí, amigo, como foi a viagem com a garota?”. Ao que suspiro, e respondo: “Mais ou menos”. Quis saber o motivo. Expliquei: “Faltou o amigo, o amigo”. Sabia do que eu falava. Como eu, o Pedro sabe que vivemos buscando a redenção e que, se há uma forma de o homem redimir-se de toda a sua hediondez, é por meio da palavra, saída, talvez, da boca de um amigo, na solidão dos discursos, numa mesa qualquer.

6.1.06

Amor de pai


A primeira lembrança que tenho de meu pai já completou 25 anos. Os dois, em pé, num bar de uma pequena cidade do interior de São Paulo. Ele com trinta e nove anos, eu com três. Ele tomava uma meia cerveja, e eu, um Yakult. Ele trajando calça jeans, e eu, um macacãozinho. Ignoro muitas informações daquele dia. Não ignoro, porém, o trabalho que tive para abrir o pequeno potinho. Nem tenho dificuldades para lembrar que ele me oferecia ajuda. Mas eu não aceitava e ficava bravo, muito bravo. Depois ria. Ele ria também. Hoje, ao lembrar desse que foi o primeiro momento em que percebi alguma coisa do mundo, choro. Não por nada. É que sinto um impulso de correr até a sala para comentar com ele a mais tenra das minhas lembranças. Mas lembro que ele já não está mais aqui. Partiu.

Foi preciso que ele partisse para sempre para eu entender um pouco do que é ser pai. A idéia que tinha, na verdade um esboço, era distante. Continuará sendo esboço até que eu seja pai, caso for. É esse entendimento inicial, todavia, que funda o pai no garoto. Porque se trata de um processo. Torna-se pai da noite para o dia, é verdade. Mas apenas no nome. Já na alma... Há quem leve a vida toda. Mas por que tudo isso? Ah, sim, lembrei. Ao contrário de ser mãe, ser pai é doloroso. Dói porque falta ao homem aquilo que sobra à mulher: o amor sem limites. A ligação física da mãe com o filho, creio eu, é que gera esse amor. A natureza própria da mulher, de proteger a prole, também contribui para a solidez do sentimento. Tem-se, assim, a mãe que ama. Nunca a que aprende a amar, a ser mãe. Apenas ama, apenas é mãe. Já o pai, que possui a natureza da procriação, não conhece esse amor. Nunca. A ligação física também não existe. Resta ao pai, portanto, o duro, longo e, em muitas das vezes, eterno aprendizado. E por mais que aprenda, não alcançará, jamais, o amor materno. A utopia do pai é ser mãe. Eis o que eu realmente queria dizer: ser pai é padecer no purgatório.

Percebi isso dias atrás, quando lembrei, com lágrimas nos olhos, da figura do meu pai parado de pé à beira de um dos campos de futebol aqui do bairro. Eu tinha lá os meus onze, doze anos. O frio fazia vítimas. Éramos vinte e dois correndo para lá e para cá dentro das quatro linhas. Estávamos, ali, pela paixão do esporte. Além de que tínhamos, ainda, a companhia de mais vinte e um, fora o treinador. Meu pai, não. Estava só, vendo botinadas de ambos os lados. E olhava com olhos de um ex-jogador profissional que teve lá seus dias de fama no Noroeste de Bauru. Aprendia, solitário, a ser pai.

Era no estádio de futebol, precisamente o Morumbi, em que mais trocávamos impressões sobre a vida. Os intervalos dos jogos tinham a duração de duas horas para a maioria dos torcedores, a julgar pelos rostos enfadonhos. Para nós também. Mas não era, definitivamente, um fardo. Ali, eu via meu pai expandir-se, apenas ali. No mais, ele preferia a polidez. Certa vez, em uma das primeiras partidas em que fomos, no final da década de 1980, um atacante do São Paulo perde um gol embaixo das traves, sem goleiro. À época eu disputava o campeonato estadual por um time inexpressivo da várzea. Ele olha para mim espumando de raiva e diz: “Você viu, doutor?”. “Infelizmente, pai”, respondi intrigado. Ele dispara: “Filho da puta”. O palavrão saiu como que a fórceps. “Não conte para a sua mãe”. “Conto nada, pai”, acalmei-o, emendando: “Mas posso dizer também?”. “Só aqui”, ressalvou ele. “Filho da puta”. Era a cumplicidade. Tínhamos lá nossas desavenças também. O Corinthians era responsável por uma delas. Foi hercúleo o esforço para adquirirmos o ingresso daquele jogo que ocorreu em 1993. Ou melhor, para meu pai conseguir. “Espere aqui, e não ali, nem lá, aqui...”, falou-me peremptoriamente, “...já volto”. Estava no local até o ônibus do São Paulo chegar. Não me contive e fui até o tumulto tricolor que se formou em volta do da chegada do ônibus. Extasiado que fiquei, esqueci-me de voltar ao ponto de encontro combinado. Passadas duas, duas horas, ou seja, quase no começo da partida, meu pai encontra-me. Olha-me como se eu fosse um corinthiano que havia acabado de marcar um gol no nosso São Paulo e solta: “Você é retardado?”. Pararia por aí, não fosse um corinthiano ter passado e arrancado dele os tão sofridos ingressos. De tão nervoso, calou, e foi comprar outros ingressos, desta vez exigindo que eu o seguisse. Por misericórdia divina, o juiz anulou aquele que seria o gol de empate do Corinthians, no fim do segundo tempo. Ganhamos. No carro, meu pai olhava-me como quem diz: “Ah, se não tivesse ganho”.

Eu não quis ir ao velório do meu pai. Nem ao enterro. Ai de mim, ai de mim. Até de ter renegado o meu genitor fui acusado. Disseram, ainda, que não fui por preguiça. Não fui e não me arrependo. Fico, tranqüilo e feliz, com a imagem daquele homem parado à beira do campo, em plena quarta-feira, por volta das 17h30 da tarde, enquanto os outros pais corriam, arquejantes, para as suas casas. Dois meses antes de falecer, quando já tinha perdido parte da lucidez, na nossa última conversa, ele disse: “Talvez eu parta, aí é contigo”. “Não sei se consigo”, sussurrei com a boca trêmula. “Escuta...”, disse ele, “...acha que errei muito?" Meu pai foi um aluno dedicado. Até na morte.