Conversa entre amigos
Pouca coisa me agrada mais do que uma longa conversa com um amigo. Regada a café. Muito café. E tem de haver os desvios também. Dos que põem a conversa num rumo completamente diferente daquele do início. Política, futebol, arte, filosofia, amenidades, enfim, a pauta é de menos, vale mais o que se pode tirar dela.
Tenho quatro bons amigos. Que se importam menos com o conteúdo do que falo do que com a forma como falo. Querem, de mim, a pegada pessoal, e eu, a deles. Porque todo mundo lhe dá ouvidos caso você tenha uma notícia bombástica para relatar. Mas os amigos, não. Ah, os amigos contentam-se com pouco, desde que dito por você.
Na minha infância, tive lá os meus entusiasmos de garoto, é claro. Adorava, por exemplo, jogar futebol. Disputava, no pátio do prédio onde morava, longas partidas. Eu era insaciável. Queria não dois, mas três, quatro, cinco jogos. Até ficar extasiado, sentado, observando na paisagem a morte temporária da minha hiperatividade. Era bom. Mas nada comparado às conversas que tinha com meus amigos e colegas. Reuníamo-nos, também no pátio e em grande número, e ficávamos horas a tagarelar. Eu costumava falar demais. Também gostava de ouvir. Quanto mais dizia mais tinha a dizer; quanto mais ouvia mais tinha a ouvir. Foi quando percebi que emudecer perante o outro é privar-se de si próprio.
Mas, vejam vocês, ao entrar na adolescência, comecei, quando o assunto era conversa, a odiar os grandes números. Passei a ter verdadeira ojeriza de reunir-me com muitas pessoas. Dizendo muitas quero dizer mais que quatro. Era o limite. Cinco já extrapolava. Seis nem pensar. E sete, bem, sete era o número da Besta. O que dizer de oito, nove, dez? Há, pois, uma explicação. Notei consideráveis diferenças entre o garoto e o adulto. O garoto fantasia, o adulto mente; o garoto se enerva; o adulto espuma; o garoto afirma, o adulto decreta. Logo, cinco adultos juntos, conversando, é briga. Dificilmente consegue-se falar e, quando se consegue, não há meios de se concluir. Ou então se fala, mas não se é ouvido. Sem falar da pedantaria. Nos dias de hoje, todos têm muito para dizer. Bem, ao menos é o que acreditam. A verborragia é a marca do nosso tempo. Por essas e por outras, tantas outras, é que passei a evitar as multidões. Prefiro, mesmo, a solidão de dois discursos, esquecidos em algum canto.
Trago já de família o costume da conversa. Minha mãe, meu pai e minha irmã sempre foram os meus maiores interlocutores. Falava-se muito em casa, e continua-se falando. Até meu pai, que não admitia que suas decisões fossem contestadas, acabou por render-se. Dessa feita é que, como nos plenários, passou-se a estipular as pautas semanais. Era engraçado. Eu chegava em casa e ouvia alguma conversa. Já ia me intrometendo. Logo me davam a palavra. Em pouco tempo, estava instaurado o falatório, ora superficial, ora nem tanto. Mesmo a ausência de meu pai não bastou para abalar essa cultura. Que bom.
Acostumei-me assim. Por isso é que o gênero das pessoas lacônicas dá-me arrepios. Gêneros, pois há espécies diferentes. Existe o ouvinte profissional. Age, na maioria das vezes, como um terapeuta. Ouve, ouve e ouve. Só faz ouvir. E meneia a cabeça positivamente. Ah, e como o faz. Desses, eu me escondo. Há também os monossilábicos. O mundo, para eles, é um grande monossílabo. A tudo respondem com uma sílaba apenas. É ‘sim’ pra cá, ‘não’ pra lá. Quando muito, num ato que significa a própria ousadia, excedem-se respondendo com um ‘pois é’, ou ‘tem razão’, ou ainda ‘pode ser’. Cruzes! Procuro o verbo, sempre. A falta dele causa-me, por assim dizer, profunda tristeza.
Outro dia, telefona-me o Pedro. Dispara, curioso, a pergunta: “E aí, amigo, como foi a viagem com a garota?”. Ao que suspiro, e respondo: “Mais ou menos”. Quis saber o motivo. Expliquei: “Faltou o amigo, o amigo”. Sabia do que eu falava. Como eu, o Pedro sabe que vivemos buscando a redenção e que, se há uma forma de o homem redimir-se de toda a sua hediondez, é por meio da palavra, saída, talvez, da boca de um amigo, na solidão dos discursos, numa mesa qualquer.
Tenho quatro bons amigos. Que se importam menos com o conteúdo do que falo do que com a forma como falo. Querem, de mim, a pegada pessoal, e eu, a deles. Porque todo mundo lhe dá ouvidos caso você tenha uma notícia bombástica para relatar. Mas os amigos, não. Ah, os amigos contentam-se com pouco, desde que dito por você.
Na minha infância, tive lá os meus entusiasmos de garoto, é claro. Adorava, por exemplo, jogar futebol. Disputava, no pátio do prédio onde morava, longas partidas. Eu era insaciável. Queria não dois, mas três, quatro, cinco jogos. Até ficar extasiado, sentado, observando na paisagem a morte temporária da minha hiperatividade. Era bom. Mas nada comparado às conversas que tinha com meus amigos e colegas. Reuníamo-nos, também no pátio e em grande número, e ficávamos horas a tagarelar. Eu costumava falar demais. Também gostava de ouvir. Quanto mais dizia mais tinha a dizer; quanto mais ouvia mais tinha a ouvir. Foi quando percebi que emudecer perante o outro é privar-se de si próprio.
Mas, vejam vocês, ao entrar na adolescência, comecei, quando o assunto era conversa, a odiar os grandes números. Passei a ter verdadeira ojeriza de reunir-me com muitas pessoas. Dizendo muitas quero dizer mais que quatro. Era o limite. Cinco já extrapolava. Seis nem pensar. E sete, bem, sete era o número da Besta. O que dizer de oito, nove, dez? Há, pois, uma explicação. Notei consideráveis diferenças entre o garoto e o adulto. O garoto fantasia, o adulto mente; o garoto se enerva; o adulto espuma; o garoto afirma, o adulto decreta. Logo, cinco adultos juntos, conversando, é briga. Dificilmente consegue-se falar e, quando se consegue, não há meios de se concluir. Ou então se fala, mas não se é ouvido. Sem falar da pedantaria. Nos dias de hoje, todos têm muito para dizer. Bem, ao menos é o que acreditam. A verborragia é a marca do nosso tempo. Por essas e por outras, tantas outras, é que passei a evitar as multidões. Prefiro, mesmo, a solidão de dois discursos, esquecidos em algum canto.
Trago já de família o costume da conversa. Minha mãe, meu pai e minha irmã sempre foram os meus maiores interlocutores. Falava-se muito em casa, e continua-se falando. Até meu pai, que não admitia que suas decisões fossem contestadas, acabou por render-se. Dessa feita é que, como nos plenários, passou-se a estipular as pautas semanais. Era engraçado. Eu chegava em casa e ouvia alguma conversa. Já ia me intrometendo. Logo me davam a palavra. Em pouco tempo, estava instaurado o falatório, ora superficial, ora nem tanto. Mesmo a ausência de meu pai não bastou para abalar essa cultura. Que bom.
Acostumei-me assim. Por isso é que o gênero das pessoas lacônicas dá-me arrepios. Gêneros, pois há espécies diferentes. Existe o ouvinte profissional. Age, na maioria das vezes, como um terapeuta. Ouve, ouve e ouve. Só faz ouvir. E meneia a cabeça positivamente. Ah, e como o faz. Desses, eu me escondo. Há também os monossilábicos. O mundo, para eles, é um grande monossílabo. A tudo respondem com uma sílaba apenas. É ‘sim’ pra cá, ‘não’ pra lá. Quando muito, num ato que significa a própria ousadia, excedem-se respondendo com um ‘pois é’, ou ‘tem razão’, ou ainda ‘pode ser’. Cruzes! Procuro o verbo, sempre. A falta dele causa-me, por assim dizer, profunda tristeza.
Outro dia, telefona-me o Pedro. Dispara, curioso, a pergunta: “E aí, amigo, como foi a viagem com a garota?”. Ao que suspiro, e respondo: “Mais ou menos”. Quis saber o motivo. Expliquei: “Faltou o amigo, o amigo”. Sabia do que eu falava. Como eu, o Pedro sabe que vivemos buscando a redenção e que, se há uma forma de o homem redimir-se de toda a sua hediondez, é por meio da palavra, saída, talvez, da boca de um amigo, na solidão dos discursos, numa mesa qualquer.

2 Comentários:
As palavras realmente medeiam o homem e a natureza... não há qualquer coisa que exista que não se submeta à ela!
Pessoalmente sinto saudade do tempo em que os espartanos caladões jogavam tagarelas de toda parte no poço.
Confesso também que nunca me identifiquei tanto com um bandido quanto naquela cena de "Cidade de Deus" em que Zé Pequeno dá um tiro num colega de quadrilha só porque o cara não parava de falar. Esse é o tipo do homicídio que eu cometeria, se fosse um homicida.
Cassiano
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