14.5.07

Redenção

Amigos, já estive na Suécia, ou por outra: já estive no que creio ser um dos melhores lugares do mundo. Sim, dos melhores. É certo que não visitei mais que um punhado de países - e todos no continente europeu, por sinal -, o que não me torna a pessoa mais indicada para falar a respeito. Mas aquela terra causou-me uma impressão tão pura, que não concebo lugar melhor.

Ali, tudo funciona, tudo dá certo, tudo caminha. Aquele mundo é a resultante que mais se aproxima da perfeita equação metafísica jacintiana da felicidade, trazida à luz pelo Eça, em A Cidade e as Serras. Mesmo o alarde que se faz em torno do alto número de suicídios não retira da Suécia a alta expectativa de vida dos seus cidadãos.

Quando por lá passei, bastante tempo atrás, não era mais que um rapazote imberbe. Considerei, por anos, ser este o motivo pelo qual eu não conseguia lembrar-me da já referida frieza do povo sueco. À parte o clima, nada existe naquele país, naquele povo, que justifique a afirmação.

Não foram poucas as vezes em que, esperando no meio fio, fui contemplado com largos sorrisos por parte dos motoristas, homens e mulheres, que, ao menor gesto de eu atravessar a rua, independentemente de haver ou não semáforos, freiavam seus carros com a mesma cortesia com que um cavalheiro, dois séculos atrás, retirava o chapéu diante de uma bela senhorita.

Aliás, ali, não é preciso solicitar nada. Parece que o sueco nasceu sabendo sobre as necessidades dos seus, que não se resumem à própria parentela. Precisar dos outros na Suécia nunca é um inferno, os outros estão, definitivamente, a léguas de serem um inferno.

Visitando alguns blogs é que deparei, novamente, com a tal frieza sueca, o mesmo que dizem dos alemães e de tantos povos. Em uma das páginas pelas quais passei, uma garota discorria sobre a dificuldade de se estabelecer vínculos mais profundos com jovens suecos. Até aí tudo bem, creio que seja mesmo essa a característica daquele povo.

O mal eterno está em tomar esse comportamento como sendo de natureza opaca, fraca de emoções. Amigos, percebam: uma afirmação desse gênero saindo da boca de um brasileiro é uma das maiores inversões de que já se teve registro. Lúcifer, amigos, não chegaria a tanto.

Não consigo ver, nem de lupa em punho, o menor traço de calor humano num povo que tem por princípio considerar o outro como simples ocasião de vantagem; que vê seu semelhante como concorrente, sempre, mesmo nas coisas mínimas; que julga quando deveria amparar, que cala quando deveria reprimir; que se irrita com facilidade; que, em suma, age apenas em benefício próprio.

Não, amigos, não pode ser o carnaval nem o esporte critérios de avaliação da humanidade, do calor de um povo. De um abraço carnavalesco animado a um olhar fraternal numa fria manhã chuvosa e de comemorações efusivas em grupo a um aperto de mão sincero, há um abismo.

O brasileiro deveria, todos os dias, sair às ruas e, ao encontro do primeiro compatriota, encará-lo com ternura, beijá-lo na face e pedir-lhe perdão. Assim, talvez, conseguisse salvar a própria alma da pior das danações, que é a do desdém pelo próximo. E estaria, quem sabe, apto a dizer, com cautela, alguma coisa sobre outras gentes.

8.5.07

Letrados


Vez ou outra, vagando pelos caminhos sinuosos do acaso, descubro verdades rodrigueanas, eternas. Que se impõem de maneira tão vigorosa que as ignorar é ignorar a realidade das coisas, o mesmo que ignorar a si próprio. Foi uma dessas verdades que se me impôs sábado passado: há, no Brasil, mais de cento e oitenta milhões de entendidos em Os Lusíadas, a maior obra do poeta português Luís Vaz de Camões.

Não há alma neste país que, diante do poema épico, mantenha-se calada. Pelo contrário. Já tive de apartar briga, briga feia, porque todos, ao ser suscitado o assunto, queriam tomar a palavra em primeiro. Mas se vocês pensam, prezados amigos, que a natureza dos comentários se resume à simples descrição da obra, a uma inocente troca de figurinhas, enganam-se. Não. As gentes decretam, em tom seguro e de cima do altar da intelectualidade, os seus julgamentos, que não são poucos, nem suaves. Milhões de juízes, carentes de toga, todos, de dedo em riste, apontando para o épico. Ou por outra: condenando-o.

Já ouvi sentenças de todo tipo acerca da obra que precisou tirar a vida de uma garota para poder continuar existindo, segundo conta a lenda. Extensa, pretensiosa, anacrônica, desgastada, e daí pra diante. Quando se trata de Os Lusíadas, língua nenhuma pensa em conter-se. Outro dia, tive de ameaçar de tiro o Freitas, que não calava. No auge de seu discurso, chegou mesmo a perder o fôlego. Com os olhos esbugalhados, a tez vermelha e as sobrancelhas arqueadas, o sujeito cuspia críticas. O pior é que a fala inflamou as pessoas sentadas ao lado, que logo passaram, também, a falar de Camões, de Os Lusíadas. A Balbúrdia estava criada. Nem Deus desfazia aquilo.

Apesar da diversidade das críticas e certa discordância, descobri um consenso, o de que Camões é chato. Sim. Chato. Chega sempre o momento em que alguém decreta a condenação, para gozo da platéia, que aplaude, em pé, o brilhantismo do sujeito, cujas ovações que recebe o faz com lágrimas nos olhos.

Quando, no sábado, em meio a uma conversa artificial e informal entre mim, um amigo e duas garotas, surgiu o nome de Camões, preparei o ouvido: chato. Não deu outra. A sentença veio de uma garota magrinha, baixinha e bonitinha - daquelas cocotas que se esforçam, herculeamente, para mostrar uma rebeldia que sua alma não possui. Chato. Eu e meu amigo, o Abranches, ainda tentamos resistir, debalde. O eco da palavra já se propagava, às tontas, pelos quatro cantos do aposento, e martelava, sutilmente, em nossos ouvidos, a cantiga da perplexidade: chato, chato, chato...

Saí de lá com a constatação de que apenas eu e mais um punhado de pessoas somos os únicos rasos o bastante para não alcançar o que pretendeu Camões com tudo aquilo. Eu, talvez, o mais raso de todos. Porque sua obra é, para mim, o que é a cor para os cachorros: preto e branco. No épico do poeta português, não vejo, por incapacidade minha, quase nada do que deveria ver. Nem que quisesse, portanto, não poderia chatear-me com Os Lusíadas.

Não vejo, é verdade, mas desconfio.

Rezo, com ardor, para que Deus, em determinado momento da minha vida, permita livrar-me desta desconfiança: a de que onde vêem extensão desmedida, haja exatidão de forma; no lugar de pretensão pedante, consciência e honestidade artística; anacronismo, onde permanece a atualidade; e em vez de desgaste, um vigor que não se cansa, nunca, de cantar a essência humana.

Até lá, enquanto não puder mais do que simplesmente desconfiar, nada há que fazer. E mesmo estando eu correto, ainda assim haverá pouco, muito pouco a ser feito contra essa verdade, que se mostra eterna.

Agora, pior que a chatice camoniana, foi eu nunca ter me dado conta de outra verdade: os brasileiros são assíduos leitores do gênero poético.