Redenção
Amigos, já estive na Suécia, ou por outra: já estive no que creio ser um dos melhores lugares do mundo. Sim, dos melhores. É certo que não visitei mais que um punhado de países - e todos no continente europeu, por sinal -, o que não me torna a pessoa mais indicada para falar a respeito. Mas aquela terra causou-me uma impressão tão pura, que não concebo lugar melhor.
Ali, tudo funciona, tudo dá certo, tudo caminha. Aquele mundo é a resultante que mais se aproxima da perfeita equação metafísica jacintiana da felicidade, trazida à luz pelo Eça, em A Cidade e as Serras. Mesmo o alarde que se faz em torno do alto número de suicídios não retira da Suécia a alta expectativa de vida dos seus cidadãos.
Ali, tudo funciona, tudo dá certo, tudo caminha. Aquele mundo é a resultante que mais se aproxima da perfeita equação metafísica jacintiana da felicidade, trazida à luz pelo Eça, em A Cidade e as Serras. Mesmo o alarde que se faz em torno do alto número de suicídios não retira da Suécia a alta expectativa de vida dos seus cidadãos.
Quando por lá passei, bastante tempo atrás, não era mais que um rapazote imberbe. Considerei, por anos, ser este o motivo pelo qual eu não conseguia lembrar-me da já referida frieza do povo sueco. À parte o clima, nada existe naquele país, naquele povo, que justifique a afirmação.
Não foram poucas as vezes em que, esperando no meio fio, fui contemplado com largos sorrisos por parte dos motoristas, homens e mulheres, que, ao menor gesto de eu atravessar a rua, independentemente de haver ou não semáforos, freiavam seus carros com a mesma cortesia com que um cavalheiro, dois séculos atrás, retirava o chapéu diante de uma bela senhorita.
Aliás, ali, não é preciso solicitar nada. Parece que o sueco nasceu sabendo sobre as necessidades dos seus, que não se resumem à própria parentela. Precisar dos outros na Suécia nunca é um inferno, os outros estão, definitivamente, a léguas de serem um inferno.
Visitando alguns blogs é que deparei, novamente, com a tal frieza sueca, o mesmo que dizem dos alemães e de tantos povos. Em uma das páginas pelas quais passei, uma garota discorria sobre a dificuldade de se estabelecer vínculos mais profundos com jovens suecos. Até aí tudo bem, creio que seja mesmo essa a característica daquele povo.
O mal eterno está em tomar esse comportamento como sendo de natureza opaca, fraca de emoções. Amigos, percebam: uma afirmação desse gênero saindo da boca de um brasileiro é uma das maiores inversões de que já se teve registro. Lúcifer, amigos, não chegaria a tanto.
Não consigo ver, nem de lupa em punho, o menor traço de calor humano num povo que tem por princípio considerar o outro como simples ocasião de vantagem; que vê seu semelhante como concorrente, sempre, mesmo nas coisas mínimas; que julga quando deveria amparar, que cala quando deveria reprimir; que se irrita com facilidade; que, em suma, age apenas em benefício próprio.
Não, amigos, não pode ser o carnaval nem o esporte critérios de avaliação da humanidade, do calor de um povo. De um abraço carnavalesco animado a um olhar fraternal numa fria manhã chuvosa e de comemorações efusivas em grupo a um aperto de mão sincero, há um abismo.
O brasileiro deveria, todos os dias, sair às ruas e, ao encontro do primeiro compatriota, encará-lo com ternura, beijá-lo na face e pedir-lhe perdão. Assim, talvez, conseguisse salvar a própria alma da pior das danações, que é a do desdém pelo próximo. E estaria, quem sabe, apto a dizer, com cautela, alguma coisa sobre outras gentes.
