Mudando de assunto
Era o que eu tentava, de forma paciente, explicar para o Aldo, dias atrás, no telefone: “Calma, amigo. Não se culpe, por Deus, não se culpe”. Chorava um choro triste, o Aldo, e, desolado, praguejava: “Não, Gaudério, eu errei, eu errei!”.
Há qualquer coisa de heróico nas lágrimas de amor. Ainda mais quando partem de um homem. Passaram-se os anos, vieram as revoluções comportamentais e, fora o discurso, pouco se alterou. O choro continua escondendo-se nos continentes mais longínquos da alma masculina.
Falei do Aldo e tenho de explicar. Meu amigo foi, durante anos, o grande conquistador. Para ele, não havia percalços, havia, tão- somente, a conquista, a esperá-lo, de braços abertos e olhar acolhedor. Por isso é que nunca compreendeu as recorrentes queixas dos homens acerca do caráter enigmático da mulher.
Afeito a desnudar a alma feminina com a mesma facilidade com que uma criança desarma, sorrindo, a feição exasperada de um adulto, o Aldo via na falta de perspicácia a razão para o que considerava como sendo “uma leviandade”. “Gaudério, para esses aí, cachorro e lingüiça são a mesma coisa”, chalaceava com a testa enrugada, contendo o sorriso. O Aldo é, na verdade, o único alquimista que conheço. Capaz de façanhas.
Certa vez, conquistou a mais ferrenha ativista de uma ONG cuja razão de ser era a luta contra o tabagismo. O Aldo fuma, amigos. Doutra feita, arrebatou o coração de uma cocota cujo carro custa mais que cinco transatlânticos bolivianos, se é que lá os há. Amigos, o Aldo é pobre. O sujeito transformava qualquer objeto de repulsa em atributo. Repito: um alquimista.
Bastou um revés, apenas um, no entanto, para que a realidade se lhe descortinasse: para nós, o amor é o outro. É, amigos, é o outro. Inatingível, incerto e distante como o outro.
Até um alquimista cai de joelhos diante da realidade do amor. Foi o que aconteceu com o Aldo. Por isso é que me recuso a falar do assunto. Quando muito, roço no tema, com pudor de virgem vestal e olhos de Madre Tereza.
Outro dia, a caminho da padaria, vi um casal de mãos dadas. Seguiam pouco a minha frente, em passos médios, como eu. Dizia ela, em tom suave: “Se me deixar, morro...”. Ele, com a postura mais ereta que solteironas quando se põem a falar sobre equilíbrio emocional, responde, seco: “Não deixarei”. Reduzindo os passos, ela suspira e retruca: “Meu amor...”.
Era a certeza do outro, que, no fim das contas, é a única que procuramos.
