8.6.07

Negras e Vermelhas

Com cara de gladiador romano de última hora, frente aos leões do imperador – notem, amigos, que nem todos os gladiadores eram Spartacus –, protestava o Ferreira, há alguns anos, num café da avenida Paulista: “Gaudério, a ditadura brasileira torturou demais, torturou demais!”, e meneava a cabeça, segurando o queixo e contraindo o rosto, “meu deus, meu deus”. Aquela cena marcou-me de tal modo que, toda vez que passo por aquele café, atravesso a rua: tem cheiro de tortura.

Com o passar do tempo, notei, vejam vocês, que a expressividade do cinema neo-realista italiano não era privilégio do rosto do Ferreira. Era, pois, de toda uma turma. Por onde eu passava, havia sempre um Ricci (protagonista do filme Ladrões de Bicicleta, de Vittorio De Sica), a lamentar, com a feição contraída, o roubo, não de sua bicicleta, como no filme, mas de seu passado ou dos seus, de sua identidade e quantos roubos mais se “pode” atribuir àqueles mandatários, como se costuma fazer.

Com efeito, o que quero dizer é que a tortura sofrida por políticos, estudantes, artistas, professores etc., durante o período autoritário no Brasil, é pauta diária. Não importa por onde se inicie uma conversa, o papo converge, sempre, para o mesmo centro.

Amigos, no Brasil dos instruídos, é fato, só se fala em tortura. Não há mais assunto. Vou além: só se fala, só se escreve, só se filma, só se estuda esse tema. De cada dez entrevistados em programas televisivos, revistas semanais, documentários de cinema e coisa que o valha, nove foram torturados - o que sobra também foi, mas desconversa: é, geralmente, o mineiro de Fernando Sabino, que prefere não falar nisso. Sem mencionar as teses de mestrado e doutorado que proliferam nas universidades afora.

Inevitável, portanto, chegar à terrível conclusão de que este país é a própria tortura. Um povo sofrido, cujo dorso suporta infinitas e gravíssimas conseqüências de um tempo não tão longínquo, responsáveis, inclusive, por nossa eterna condição de subdesenvolvimento.

Citei, lá em cima, a figura do imperador romano, que me leva agora a pensar, obviamente, em Nero.

Registram os anais, poucos, é verdade, que, em certa ocasião, talvez levado por certo marasmo, aquele imperador, depois de mandar recolher na arena alguns corpos de cristãos mortos por leões, prendeu-os a grossos pilares de madeira, ateando-lhes fogo. Para o romano, isso era pouco, concordo. Pouco não foi, no entanto, ter disposto os pilares ao redor de um espaço em que ele, Nero, receberia convivas para uma festividade. Amigos, entendam: os cristãos serviram de iluminação para a festança do imperador.

Fosse o ato considerado como se deveria, lembrado ao esgotamento, com lágrimas nos olhos e o rosto horrorizado, talvez os críticos de plantão da ditadura sentissem um pouco de vergonha em pronunciar, mais de uma vez, termos como “pau-de-arara”. E a maldita mania de pensarem o período “ditatorial” brasileiro como uma das páginas mais negras da história mundial talvez os abandonasse, para todo o sempre.

Porque, História afora, amigos, encontram-se muitas páginas negras. Poucas são, contudo, as que vertem sangue. De espessura grossa. De ar pestilento. E esse, devo crer, não chega a ser o nosso caso.

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